Congregação Cristã do Brasil pressiona fiéis a votarem em Bolsonaro, relata frequentador


Fachada da da Congregação Cristã no Brasil
Fachada da da Congregação Cristã no Brasil

Nascido e criado diante dos altares da Congregação Cristã do Brasil, o bacharel em Direito, Daniel de Souza, 45 anos, tem passado por uma situação inédita na igreja que frequenta no Setor Finsocial, região noroeste de Goiânia: pastores que usam o púlpito para atacar legendas de esquerda como o PT, PDT, PSOL, PCdoB e outros partidos.

“A situação ficou ainda mais complicada, beirando a perseguição desde que uma circular divulgada pela direção nacional da igreja foi divulgada, no começo deste mês”, relata em entrevista, nesta quarta-feira, 24, ao Diário de Goiás.

A circular, que pode ser lida neste link aqui, diz:

Conforme Tópico de Ensinamento publicado na última RGE, em abril de 2022, alertamos o Ministério e a irmandade sobre a orientação ali contida, referente às eleições, onde diz o texto:

Não devemos votar em candidatos ou partidos políticos cujo programa de governo seja contrário aos valores e princípios cristãos ou proponham a desconstrução das famílias no modelo instruído na palavra de Deus, isto é, casamento entre homem e mulher.

Daniel relata que sempre frequentou os corredores da igreja com muita tranquilidade e sem problemas com relacionamentos políticos. O próprio Estatuto da Religião define a mesma como uma organização “apolítica”.

Mas a situação começou a mudar a partir do momento que a Circular começou a ser lida publicamente por pastores da igreja. Apesar de não fazer menção direta, Daniel afirma que os líderes interpretam aos microfones e destacam partidos como o PT, que tem sustentado a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Eu nunca vi nos meus quarenta e cinco anos de igreja isso acontecer”, relata. “Quando alguém fala que não vai votar no Bolsonaro, é tido praticamente como um endemoniado”.

“Quero retratação”

Ele conta que chegou a questionar um dos pastores que fez uso do microfone para realizar o que chamou de “ativismo político”. “Disse a ele que estava errado e que ele não podia fazer aquilo daquela forma. Nos corredores ele me xingou de tudo. Me chamou de petista, comunista, socialista… Foi um constrangimento muito grande. Eu não vou sair da igreja e falei que ia denunciá-lo”, relata.

Daniel comenta que a situação chegou ao tamanho ponto de querer ver dos líderes uma retratação. “Essa discussão continuou. Estou buscando em conjunto com os dirigentes da igreja uma retratação. É incomum essa postura na igreja que é muito boa. Há uma diretriz dentro dela que todos não podem ter relações políticas”, destacou o bacharel em direito que ressalta sua preferência política no pedetista Ciro Gomes.

“Ultimamente eles estão atacando demais pessoas que votam em outros candidatos que votam em candidatos mais à esquerda, por exemplo, eu voto no Ciro Gomes para presidência mas estão atacando mais, por exemplo, quem vota em petistas”, pontuou. “A Igreja foi construída por eletricistas, trabalhadores de diferentes criações e culturas, muitos deles petistas. A igreja tem que ser aberta para todo o mundo, não fechada como querem induzir essa circular”, desabafou. “O estado é laico. Onde está a democracia? Ou chama todo o mundo para falar lá em cima ou não chama ninguém”.

Ativismo político começou agora

Daniel relata que o ativismo político em torno do presidente Jair Bolsonaro começou com mais força nessas eleições. Mesmo em 2018, com o boom do bolsonarismo em seu ápice, não houve palanques abertos na tribuna da Congregação. “Até havia nos grupos de Whatsapp, uma certa preferência pelo presidente eleito, mas nenhum problema quanto a diferenças políticas. Na igreja não havia nada disso, era totalmente proibido falar quaisquer candidaturas”, pontua.

“A diferença de 2018 para hoje é que com a leitura da Circular e na hora já começam a gritar sobre petistas, comunistas, esquerdistas, socialistas. Eles literalmente descem o cacete em quem não votar em Bolsonaro”, destacou. “Depois desta Circular é que a coisa desandou mesmo.”, destaca.

Daniel revela que sua mãe sempre frequentou a igreja e nunca deixou de votar no ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. “A minha mãe é evangélica há muitos anos e vota no Lula declaradamente. Sempre votou”, pontua. Segundo o bacharel em Direito, há outros membros da Igreja que discordam da diretriz, mas ficam em silêncio. Outros, até não concordam com a forma como o presidente Jair Bolsonaro conduz a administração do Palácio da Alvorada, mas ficam em dúvida diante da pressão dos pastores.

“Estão fazendo uma lavagem cerebral muito grande sobre o PT fechar as igrejas, por exemplo. Alguns que tendem não gostam do Bolsonaro e poderiam votar em outros candidatos ficam receosos. É algo que acaba afastando as pessoas da própria Igreja. Isso não é certa”, confessa.

Daniel pontua que a orientação da Igreja vai muito além da legislação e Constituição Federal que prega o Estado laico, mas também contra o respeito às pessoas. “Eu peguei muito no pé sobre essa diretriz porque não é só contra a lei. É contra o respeito às pessoas. A igreja tem que falar de Jesus. Aqui vai entrar o traficante, o assassino, o gay, drogado. A igreja deve aceitar e acolher essas pessoas”, salienta.

Procurada por meio de telefone, a instituição não retornou contato com a reportagem do Diário de Goiás.

Fonte: Diário de Goiás



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