Igreja Presbiteriana do Brasil rejeita proposta contra “fiéis de esquerda” para evitar racha interno


Templo de uma Igreja Presbiteriana (Imagem: Reprodução / Facebook Igreja Presbiteriana do Brasil)
Templo de uma Igreja Presbiteriana (Imagem: Reprodução / Facebook Igreja Presbiteriana do Brasil)

A Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) rejeitou uma proposta de criar uma comissão interna para orientar seus pastores sobre “a contradição entre o marxismo e suas variantes” versus o “cristianismo bíblico”. Também era parte da proposta determinar que as pastorais orientasse os “declarados ‘cristãos de esquerda ou progressistas’ de suas inconsistências”.

A ideia era que os fiéis fossem orientados a se afastar do “comunismo” e do que os líderes classificam como “nefasta influência do pensamento de esquerda”. A proposição foi vista internamente como uma tentativa de inibir que seus fiéis votassem em candidatos de esquerda.

A decisão rejeitando a proposta para criar uma comissão “antiesquerda” foi tomada nesta sexta-feira (29), durante o Supremo Concílio da IPB, realizado em Cuiabá. O Supremo Concílio é o órgão máximo de deliberação da igreja, realizado a cada quatro anos.

Com o risco de o documento original ser aprovado, o pastor Cid Pereira Caldas apresentou na manhã de sexta-feira (29) um relatório substitutivo sobre o assunto.

No texto, Caldas diz que a “IPB tem mantido equidistância de radicalismos” e defende que “não é finalidade da IPB manifestar-se sobre partidos políticos”.

O relatório substitutivo foi aprovado pelo Supremo Concílio, na sexta, por 738 votos contra 538.

Cid Pereira Caldas é presidente do Conselho de Administração do Instituto Presbiteriano Mackenzie e pastor da Igreja Presbiteriana de Botafogo. Ele é próximo do presidente do Supremo Concílio da IPB, Roberto Brasileiro.

Três membros da cúpula da IPB e interlocutores de Cid afirmaram à Folha de S. Paulo, sob reserva, que o relatório inicial tinha potencial para rachar a igreja como ocorreu na década de 1970, durante a ditadura militar.

Na época, a Igreja Presbiteriana do Brasil apoiava o governo militar. Indignados, pastores decidiram romper com a liderança da instituição e criaram a Igreja Presbiteriana Unida.

Na deliberação, o Supremo Concílio reafirmou “a incompatibilidade entre o comunismo ateu e materialista e a doutrina bíblica bem como os símbolos de fé da IPB”, mas decidiu “não nomear comissão para análise política de partidos, por não ser finalidade da Igreja Presbiteriana do Brasil”.

Outra definição tomada nesta sexta foi permitir que seus ministros participem de partidos políticos. Mas, para se candidatarem a cargos públicos eletivos, os religiosos deverão pedir licença, sem qualquer ônus para a igreja.

Após a derrota no Supremo Concílio, Osni Ferreira, relator da proposta e que defendeu voto em Bolsonaro no púlpito da igreja, afirmou que a discussão jamais tratou sobre perseguir cristãos de esquerda.

“Toda vez que eu respondia a uma pergunta, eu falava que não estávamos tratando de candidato A ou B. Claro que você tem um candidato, claro que eu tenho. Isso é uma liberdade do pastor. O voto é secreto, é da consciência. O que nós estamos falando é que o cristão ou o presbiteriano não deve votar em nenhum candidato que defende princípios que a Bíblia é contra”, disse na sexta ao canal da Sexta Igreja Presbiteriana de Uberlândia.

IPB contra “fiéis de esquerda”

Após vazar a informação de que a IPB estava orientando os pastores contra os “fiéis de esquerda”, o presidente da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), Roberto Brasileiro Silva, afirmou, na semana passada, que os pastores e membros da instituição têm liberdade para se posicionarem politicamente, apesar do relatório interno que recomenda orientar fiéis a se afastar da esquerda.

“A igreja não apoia este ou aquele candidato e não destoa deste ou daquele candidato. Nós damos liberdade aos nossos pastores e aos nossos membros nos seus posicionamentos políticos”, disse o reverendo à reportagem. Ele evitou comentar o conteúdo do relatório, que fala em afastar os crentes do “comunismo” e da “nefasta influência do pensamento de esquerda”.

O presidente da IPB tentou afastar as declarações do posicionamento oficial da igreja. “Cada pastor é responsável por aquilo que ele fala, por aquilo que ele pronuncia, e responde ao seu conselho e também ao presbitério. Quando a igreja faz um posicionamento oficial é através da minha pessoa, e nós não fizemos nenhum pronunciamento”, afirmou Roberto Brasileiro Silva.

A Igreja Presbiteriana tem proximidade com o governo Jair Bolsonaro. Há dois pastores fortemente ligados ao presidente da República, como Milton Ribeiro, ex-ministro da Educação que foi preso pela Polícia Federal por suspeitas de envolvimento em um suposto esquema para liberação de verbas do Ministério da Educação, e o ministro do STF “terrivelmente evangélico”, André Mendonça.

Folha Gospel com informações de G1, Folha de S. Paulo e O Antagonista



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