Pastores de diferentes denominações criticam o uso político da religião nas eleições


A primeira-dama Michelle e o presidente Jair Bolsonaro recebem oração do pastor André Valadão (Foto: Reprodução YouTube Lagoinha)
A primeira-dama Michelle e o presidente Jair Bolsonaro recebem oração do pastor André Valadão (Foto: Reprodução YouTube Lagoinha)

Lideranças de diferentes ramificações protestantes criticaram o uso da religião na campanha eleitoral de 2022. Na visão dos pastores, a promoção do bolsonarismo dentro dos templos e o discurso do medo que a mudança de governo causaria a perseguição dos evangélicos são prejudiciais para a boa fé e manipulam a opinião do povo.

Em declarações dadas à coluna do jornalista Chico Alves, do portal UOL, cinco pastores de ramificações protestantes apresentaram seus argumentos críticos sobre a influência da fé na campanha eleitoral de 2022.

Para o pastor Levi Araújo, da Igreja Batista, há uma “maligna mistura da religião evangélica com o bolsonarismo”

“Não há nada mais perigoso para as conquistas civilizatórias do que essa maligna mistura da religião evangélica com o bolsonarismo. Um líder espiritual tem o direito de não abrir ou abrir o seu voto, mas jamais de impor o seu voto ou de manipular os seus seguidores para em nome do seu Deus votarem em quem ele vota”, criticou.

Segundo Levi, “um líder espiritual não tem o direito de se omitir e não se posicionar – ficar isento, em cima do muro – em casos extremos de risco e comprometimento do Estado Democrático de Direito, do Estado Laico, das políticas públicas de seguridade social, dos direitos humanos, da destruição da criação (natureza, florestas, biomas, animais?) e da banalização da violência contra toda forma de vida”.

A pastora Romi Bencke, da Igreja Luterana, considera que a mistura de tradições evangélicas e a política partidária deve ser vista com “muita preocupação”.

“A mistura, durante a campanha eleitoral, entre expressões de tradições evangélicas e a política partidária é péssima tanto para a fé evangélica quanto para a qualidade do debate político. Uma campanha político-eleitoral deveria centrar-se em projetos para o país. Não nos faltam problemas para resolver, sendo que o mais grave é a desigualdade econômica. A partir do momento em que colocam Deus e o Diabo como tema de campanha eleitoral, os assuntos que realmente importam tornam-se secundários, quando não invisibilizados. É claro que a fé, seja ela cristã ou não, tem uma dimensão política. No entanto, esta dimensão tem relação com a coletividade, com o bem comum. A Igreja não é partido político e nem deve ser. A simbiose entre igrejas e partidos políticos precisa ser considerada como um dos principais aspectos de reforma do atual sistema político”, disse.

Liderança da Igreja Pentecostal, o pastor Eliel Batista, considera que “não existe posicionamento apolítico, porque não existe nenhuma sociedade ou vida comunitária que não seja política. Entretanto, o uso da religião para disputa de poder eleitoral é extremamente prejudicial para a fé e uma manipulação da boa-fé do povo, porque esse uso entra numa guerra que não lhe pertence, leva as pessoas a cometerem perversidades em nome de defender um candidato específico e muitos se perdem do caminho, abandonando verdades que abraçaram quando adotaram a fé cristã. Uma das coisas que para mim demonstra que uma significativa parcela do povo evangélico está perdida vem da constatação de que aqueles que defendem valores universais, como o Direito à Vida e a liberdade dos oprimidos, não têm sido vistos como defensores do bem comum e de valores universais. Ao contrário, são tidos como defensores de algum partido político ou espectro político-partidário, e algumas vezes tomados como cabos eleitorais de determinado candidato. Isso é um verdadeiro desvio da fé. Veja: não é a religião em si, mas um desvio dela, que na fé é chamado de adultério espiritual”.

Para o pastor Edson Nunes Junior, da Igreja Adventista: “Enquanto cristãos, o que nos define é o modelo de reino ensinado por Jesus, que em nenhum momento estabeleceu um sistema político, embora tenha sido tentado a receber o poder e a glória das nações. Ele enfatizou que o reino de Deus não era “desse mundo”. Essa posição não isenta o cristão de agir ou ser a favor de ações que visem mitigar o sofrimento e a opressão causada pelo poder constituído, mas demonstra que deve existir uma distinção entre o reino dos homens e o Reino de Deus. Aliás, quando perguntado se era o Messias, Jesus respondeu com ações praticadas por ele que eram justamente a libertação de marginalizados e esquecidos pela sociedade: “os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres é pregado o evangelho.” (Mateus 11:5)”.

Por fim, para o pastor Nilson Gomes, da Assembleia de Deus, “a igreja não é uma agremiação política partidária e, em hipótese alguma, pode se tornar fiadora de qualquer candidato, partido ou ideologia política. Agora, é bem verdade que é importante o posicionamento da igreja, mas esse posicionamento precisa ser a partir de uma consciência política que busca promover o bem e a justiça. Mas nunca militância política partidária como tem acontecido em larga escala a ponto de inviabilizar o papel da própria igreja como embaixadora do Reino de Deus. O movimento evangélico precisa entender que a bandeira da igreja é o Evangelho de Jesus Cristo, e não partidos ou qualquer lado político”, concluiu.

Folha Gospel com informações de UOL e Hora do Povo



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